terça-feira, 30 de agosto de 2011

Divida os ovos

       Hoje meu aniversário. Estou triste...reflexivo...sonolento....desanimado. O sono é minha reação orgânica quando tenho dificuldade em lidar com algum aborrecimento. A festa da filha foi perfeita, e ainda falta escrever uma mensagem no livro de mensagens dela. Na festa dos 15 anos, teve um ritual dela entregar a boneca e eu colocar um sapato. Depois me foi dada a palavra...disse a ela...a boneca entregue simboliza a passagem para menina mulher, mas depois em casa eu devolvo a boneca. A preparação da festa foi excelente...os preparativos também fizeram parte da festa. Meus sogros vieram...e como bom anfitrião possibilitei o melhor conforto...ficaram em um hotel. Só isso...eles dormindo fora já me deu paz suficiente para não perder a alegria do momento.
       Mas domingo, esposa teve um momento de descontrole do humor e o tempo fechou. Ela conseguiu roubar minha alegria. Como diz o ditado da vovozinha, não se deve colocar todos os ovos em um mesmo lugar. Parte de minha alegria deve ser no trabalho, outra parte nos filhos, dividindo e deixando um pouco na esposa. Estou tentando exercitar isso...tentando..., mas... nos últimos dois dias não consigo beijar esposa e me despedir ao sair pela manhã. Não consigo entrar em casa sorrindo. Consigo ser gentil, mas não ser carinhoso. Minha vontade é passear sozinho hoje...ver um filme...andar...ou dirigir pela estrada escutando música.
         Ganhei um abraço da filha logo cedo, lembrei dos ovos depositados nela. Vou buscá-la daqui a pouco na escola e isto me alegra. Também me fizeram sorrir no trabalho e também fiz sorrir. Fazer sorrir faz bem e talvez seja a melhor forma de passar este dia. Fazer minha filha sorrir ao pegá-la. Fazer meu filho sorrir ao chegar em casa. Fazer meus cães sorrirem...estes sempre parecem sorrir para mim.
       Pode-se colocar todos os ovos em Deus...mas no restante...melhor dividir. Até sobre si mesmo é arriscado. Exceção aos sogros, neste caso o melhor é arremessar o ovos neles.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mês de festa

   Estou tirando o que me resta de férias...11 dias. Este mês foi aniversário de meu pai, estarei comemorando os 15 anos da filha e no dia 30 é o meu...43 anos. Não devo escrever nada neste período, mas devo entrar para ler os posts de outros blogs.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Saudades

      Hoje estou com saudades...uma perda de algo que não perdi...a ausência de alguém que não esteve presente... de momentos que não vivi ... uma voz que faz parar o tempo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Que fonte queremos ser?

        Segunda foi um dia estressante, mas ontem ... foi sem classificação. Fui destratado por subordinado na frente de outras pessoas, inesperadamente, e logo por um pelo qual tenho alta estima. Saí calado e depois de pensar em como tratar o assunto, reuni todos presentes na situação. Optei por não tratar do assunto pelo regulamento, falei sobre o que me motiva ... as pessoas ... e abordei sobre o prazer de estar aqui no trabalho que me foi roubado pelo tenente...que estava presente. Falei sobre a vergonha, por isso aquela reunião, para que eu pudesse encará-las novamente. Minha autoridade foi irrelevante, fui atingido como pessoa. Aquela reunião era para encerrar o assunto, pois eu não ia levar aquela tristeza para casa, nem remoer o assunto. O resultado foi o esperado...manifestação de apoio dos sargentos presentes e o tenente saiu arrasado (e não era esta a intenção)...mas para crescimento dele e aprendizagem não tinha como fugir a este processo.
         O fato aconteceu pela manhã. Filha percebeu no almoço meu estado. Na hora de voltar ao trabalho, abracei esposa forte, buscando sentido para meu dia. Adoro o que faço, mas saio de casa ansioso por voltar. Nada do que faço é relevante diante do que eu poderia fazer em relação aos mendigos nas ruas, velhinhos vendendo doce em semáforo à noite e debaixo de chuva (já vi isso em Niterói). Todo meu trabalho aqui e as regras que sigo só ganham valor pelas pessoas com as quais convivo. Nenhum soldado luta por ideais ou arrisca sua vida para que os objetivos estratégicos sejam coquistados. O que dá sentido à luta é o companheiro ao lado, com o qual corremos os riscos juntos. As regras são importantes apenas para manter a saúde coletiva, para conciliar ou mediar conflitos pessoais. Exigir e cobrar resultado de pessoas apenas tem sentido, pelo em respeito à maioria que cumpre suas obrigações. Punir só tem valor quando servir de aprendizagem ao punido e à coletividade, marcando claramente o que é errado. Tudo que fazemos...produzimos...administramos...só tem valor quando motivamos subordinados, servimos ao colega de trabalho que depende de nós. Existem problemas tão relevantes envolvendo pessoas nas proximidades das ruas que moramos...envolvendo a faxineira que trabalha em nossa casa. Ficamos tão envolvidos em "produzir" e nos tornamos presa fácil de armadilhas sutis da vida. Quando senti minha alegria de trabalhar roubada pela atitude do tenente, percebi que sou motivado por pessoas. E que tendemos a não focar nossa energia nisso. Por vezes negligenciamos os mais próximos dos próximos, a família.
        O tenente me procurou ao iniciar este dia. Dormiu mal e demonstrou arrependimento. E arrependimento requer reparação. Ele demonstrou que sua punição seria uma forma de reparar. Esclareci que já me sentia reparado e que ninguém é produto acabado. Caso o problema tivesse se tornado público, a notícia tivesse se espalhado, teria que tratar de outra maneira. Mas os próprios sargentos presentes, sabiamente fecharam o cerco para que isto não acontecesse.
       Ao acordar, antes de pensar no que temos para fazer, deveríamos pensar em quem nos seremos naquele dia e por quem vamos fazer cumprir nosso dever diário. As pessoas são fonte de grandes tristezas, mas são a fonte de nossas maiores alegrias. Que tipo fonte queremos ser?
     

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Exercitando a fé

         Quando mais novo exercitava com frequência a fé. No momento não sei me classificar, mas há marcas que me chamam de volta. Exercitava a fé nas pequenas coisas: ao perder uma chave, quando perdido em algum lugar e na ansiedade de decisões irrelevantes. Talvez nesta esfera chamada "espiritual" nem exista diferença entre fé para pequenas ou grandes situações.
         Dois dias atrás precisei exercitar a fé novamente, diante da alteração de humor da esposa, em que ela ficou com um pé na loucura e outro na razão. Na verdade acho que nem tinha pé mais na razão. Cheguei em casa, depois de um dia calmo, consegui ficar sereno no meio do transtorno que esposa tinha promovido. Tomei um banho, no qual fiquei ganhando tempo sob a água quente, pensando em como encarar  a "realidade" que eu sublimava na mente. Reuni todos na sala e consegui fazer a fera deitar a cabeça no meu colo.  Então eu disse:  ... "não sei mais o que fazer a não ser orar ... vamos orar". Depois lemos uma história bíblica em linguagem infantil. Um sentimento de serenidade me dominou desde o momento que entrei em casa, apesar do turbilhão de idéias que passavam pela mente, as quais consegui organizar e fazer o que fiz. O resultado foi o mesmo de quando eu vivia mais pela fé ... fui atendido ... humor da esposa se acalmou como quando o Cristo acalmou uma tempestade dando ordem ao vento. Mas antes mesmo da resposta atendida, a fé já tinha feito seu trabalho em mim, pois eu já estava em estado de espírito como se aquilo não estivesse acontecendo. Não vou contar os detalhes porque aparentaria ser ela uma esposa e uma mãe cruel, e isto não é verdade. Na verdade, devido ao transtorno bipolar, ela funciona como duas pessoas distintas e entre uma e outra surge eventualmente uma menina assustada. Não importava o resultado daquela oração, não me senti sozinho e estava em paz para qualquer desfecho. Acho que eu precisava tanto quanto ela daquela oração.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O direito de transgredir

        Um post esta semana me despertou a vontade de escrever. Não lembro mais sobre o quê ... são tantas idéias que passam pela mente...ou fatos que poderia compartilhar ... mas o tempo é pouco e a preguiça muito maior e os assuntos vão ficando apenas na minha mente.
        Sou fixado na questão do "exemplo arrasta" e me cobro muito e isto recai sobre família. Ano passado esposa estava internada após uma cirurgia de desvio de sépto nasal, faltava apenas o médico passar e dar alta (ela ansisosa para isso). Filha estava lá também aguardando (o filho do coração ainda não estava conosco), todos cansados e com fome (menos esposa que estava era com dor). Eram cerca de 19 horas e recebi ligação de colega ao qual sou subordinado...uma subordinação funcional, mas estamos no mesmo nível hierárquico...ele se formou um ano antes de mim. É um cara correto...ma flexiblidade zero...quando vou argumentar algo com ele, me sinto conversando com uma parede...e as vezes evito porque acho que não consigo esconder minha irritação. É difícil distinguir limitação de raciocínio com preguiça, e pior quando acompanhada de insensibilidade. A empatia é algo imprescindível para ser líder e a empatia deve ter duas mãos...do chefe para o subordinado e vice-versa.
           Na ligação este meu companheiro, sabendo que eu estava com esposa no hospital, deu-me a ordem para resolver uma ocorrência envolvendo a PM e um major da reserva (aposentado). O major estava embriagado e se recusava a ser conduzido por policiais militares de hierarquias inferior. Como aqui é uma cidade pequena, não tinha. Então fui acionado, pois meu superior tinha um compromisso oficial, no qual estaria representando o comandante. Como ele não "poderia" ir julgou que eu "poderia". Eu perguntei a ele..."Você entende que estou com esposa no pós cirúrgico, com dor, e esperando médico dar alta e que esta ocorrência poderá demorar muito?". Ele entendeu respondeu que sim ...eu fiquei mudo e esposa percebeu meu conflito: dever versus família. Jamais um superior meu havia chegado àquele ponto e eu jamais faria aquilo. Eu não estava acreditando e depois fiquei pensando como é perigoso quando se faz um homem questionar valores que jamais questionaria. Esposa disse..."vai". Eu saí do quarto me sentindo culpado por decidir cumprir a ordem, mas fui pelo corredor do hospital pensando..."Vou chegar lá, este major não vai querer entrar na viatura da PM e eu vou enfiar ele na viatura na porrada...os PM vão ter outra ocorrência." Então lembrei do médico...que também era mais antigo que o tal major...encontrei a solução. Liguei para ele e contei a situação...pedi que fosse no meu lugar e ele prontamente aceitou. E acrescentei..."faz um favor para mim, diga para o fulano que você me substituiu, pois eu não quero nem escutar a voz dele no momento".
            Mas a história principal não é esta. este foi apenas uma mostra de como penso sobre transgredir ou não cumprir regras. Hoje fui padaria e comprei alguns quitutes para o café. Como me atrasei, nãop conseguir tomar café e então decidi que voltaria durante o expediente para tomar café com família. Iniciei expediente as 7 da manhã, trabalhei até as 8 e pedi para ir em casa (não disse o motivo) e fiz me dei ao direito de uma pequena transgressão...sair durante o expediente para curtir café com família. Não foi nada imoral, mas para o padrão da caserna, esbarra em agumas arestas de correção de atitudes. Cheguei e esposa estava arrumando mesa. Filho estava acordado e escovei dente dele e o arrumei para o café. Filha ainda estava dormindo e a acordei dizendo "amo você...quer tomar café comigo?" ...ela demorou a se mexer e então carinhosamente exercitei meu lado exigente falando brandamente no ouvido dela ... "tenho que voltar para o trabalho, não vou poder demorar" ... ela se levantou prontamente sem reclamar. Eu estranhei isto e acho que ela meu jeito exigente light.
           Foi muito bom! Foi como dizer a minha família... "Vocês são mais importantes a ponto de eu contrariar algo que sigo rigorosamente, para estar com vocês". Quando voltava ao trabalho...pensei que se um dia fosse comandante daria a seguinte ordem..."Uma vez por semana cada um pode cometer uma transgressão desta"...uma por semana é muito né?.... uma vez por mês fica melhor ... em alguns casos específicos até mais, para não ser muito cartesiano.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O DIREITO DE CONHECER A NORMA CULTA

Recentemente no Brasil foi suspensa pelo Governo a distribuição do livro  “Por Uma Vida Melhor”, a 500.000 estudantes do ensino fundamental, tratando sobre uma velha discussão da teoria sociolingüística, linguagem popular versus linguagem culta como meio de comunicação.

Defensores do livro alegam que a imprensa irresponsável e desinformada alimenta uma visão reduzida sobre o ensino da língua e ofende todo o trabalho desenvolvido pelos lingüistas e educadores de nosso país, cujo objetivo apenas seria desmistificar a noção falar “errado”, substituindo-a pela de adequado/inadequado. Isto fundamentado no pressuposto de que não se deve admitir a superioridade de uma expressão cultural sobre outra. No entanto não apenas a imprensa dita desinformada, mas também a Academia Brasileira de Letras, em especial seu principal interlocutor, o gramático Evanildo Bechara, considera que alguns colegas subvertem a lógica em nome da doutrina e que a defesa do livro decorre de um equívoco, confundindo a discussão sociolingüística, que deveria se limitar ao meio acadêmico, como problema de ordem pedagógica.

Na página 12 do livro consta: “Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário”. Enquanto defensores do livro alegam preconceito lingüístico, como forma de domínio da elite social, e a desconsideração do caráter multifacetado e plural do português brasileiro. O movimento contrário rebate que justamente o ensino da norma culta ajuda na libertação dos menos favorecidos, e que o livro é fruto de resquícios ideológicos de um movimento que surgiu no meio acadêmico na década de 60, quando se contestava qualquer tipo de norma ou autoridade.

Lendo sobre as posições defendidas e alguns dos trechos do livro (consegui na net), na condição de leigo arrisco dizer que será criada uma distância muito maior entre  o ensino da rede pública e o ensino da rede privada. Porque os “Colégios São Bento da vida” continuarão ensinando a língua culta, enquanto as crianças da rede pública aprenderão que escrever “Nós joga as pedra” também é possível, mas que poderão sofrer preconceito lingüístico. Será que estas crianças escolherão aprender algo mais difícil, se escrever assim não está errado? Eu me pergunto também se os defensores deste livro pagariam para seus filhos aprenderem língua inglesa que não seja dentro da linguagem culta. Imagino que estrangeiros usarão melhor o português em linguagem culta do que a maioria dos brasileiros.
             Vejo que em longo prazo teremos mais uma secção em nossa sociedade. Pode parecer paranóico, mas sinto que caminhamos para um futuro em que as diferenças estarão cada vez mais realçadas, estrategicamente plantadas por causas ideológicas. Inicialmente foram realçadas as diferenças que já existiam, algumas eram discretas. No futuro teremos uma elite com linguagem culta, cada vez mais dominadora sobre uma massa com linguagem cada vez mais pobre. Logo será crime também o preconceito lingüístico. A quem interessa uma sociedade tão fragmentada e cheia de conflitos?